quinta-feira, 20 de outubro de 2016

VENTO

vento

à beira rio um criança
estava num jardim a
separar as pombas
dos melros por causa
do milho a cair sob
o olhar atento das
gaivotas


e o silêncio rente das andorinhas
no meio das folhas irrequietas das
árvores a criança agarrou um papel
com palavras e imagens que a meio
do vento me fugiu das mãos , a
crianças pediu - me que fizesse
daquela página solta um avião
ou um barco , disse -- lhe faz
tu , eu , sò ajudo , não sei voar
nem navegar , a criança começou
a sonhar com a habilidade e a
 imaginação ,

o coração começou - se a abrir como
 uma cor e a cabeça fechou - se como
uma concha ,

no fim da história apareceu a mãe a dizer
a criança não estragues o poema que è
 desse senhor

respondi - lhe foi o seu filho que me ensinou
a voar e a navegar por um instante , foi ar
que se lhe deu , não pertencem a ninguém
acaso , vivacidade , sei là ,  a arte não te dono
anda por ai , ainda bem , amen



ÌGNEOS

ÌGNEOS

Os corpos
desviam nos
nomes
as três folhas
do trevo







ALTIVO MAR

eu queria ser o mar altivo
do altivo porto que canta
e ri , a imensa vastidão !

eu queria ser o sol , a luz
intensa o bem que è humilde
e não tem sorte  !

eu queria ser a árvore tosca
e densa que ri do mundo vão
atè da morte !


mas o mar também
 chora de tristeza ...
as árvores também ,
como quem ora ,

abrem , aos céus ,
os braços como
um crente !

e o sol altivo e forte ,
ao fim de um dia ,

tem lágrimas de sangue
na agonia !

e as pedras ... essas
... pisa - as toda gente ! ...


ILUMINURA

ILUMINURA

Cinco sentidos bailam
a cabra - cega e là no meio
um sexto , de olhos vendados ,
è o que vê melhor è noite ; a
sensibilidade , ainda um sètimo
a arte - delimitada o espaço
invisível com um circulo mágico
em redor , começa a crescer um
âmago a partir do centro e a poesia
não mete meto , não come sonhos

não cospe monstros ,
è uma vertigem muito
alta de água e luz ,

pode aninhar  - se na
posição do feto dentro
dos nossos corações ,

pode transformar - se
em pò na manhã seguinte
para voltar a construir um
jogo sempre diferente ; vida
amor e morte - a pirâmide





LAPIDE

LAPIDE

ainda não me lembro
ou jà me lembro
não há memória
sò há histórias
nenhuma parábola
è definida enquanto
houver um fio imperceptível
que se puxa solta o carrinho

de linhas não há metáforas
enquanto as estrelas as mãos
abertas e não se apanham lendas
com armas de borboletas pelas
asas não há fábulas fantasmas
epitáfios valas de mármores
matrizes cruzes datas enquanto
as palavras forem crianças arcos
os homens e as mulheres flechas



RECADO

recado

fomos namorados
há vinte anos
e todas as manhãs
perdidos a procura
das palavras de ontem
a noite  , julgàmo - las
pousadas  em cima da mesa
onde era costume trocarmos

de livros ao sol ou frutos frios ,

corremos à casa o bosque e nada ,
sò um silêncio estranho mesmo
sem vento ou fúria à força frestas

as janelas , a bater com as portas ,
a memória dos sonhos a diluir - se
no adormecer e acordar tumultuosos
que nos percorrem um sono longo

e difícil , uma luz  sem razão  , uma
sombra de ninguém , um elo seco
sem sentido e caminho , um brado
animal de estar sempre fora do sítio ,

embora a mão , localizando o caos
perto , a alegria solitária de irmos
longe fazer a cama um ao outro ,
levantar a almofada e descobrir

tudo là guardado , estimado palpável
alo debaixo , como um segredo a
chamar - nos de propósito , como

o primeiro som de uma criança a sair
do útero , a última sílaba a escapar

sábia de uma boca ávida , nua a partida
ou a chegada , um abraço de abrir o corpo
e fechar o reencontro






quarta-feira, 19 de outubro de 2016

AS VOZES DO SILÊNCIO , LENHA

LENHA

Diniz colhia versos de amor
e semeava pinheiros que um
dia seriam barcos para descobrir
fogo ar e água ,

Isabel bordava rosas de prata
e paria filhos no forno da lenda

ao ventre da terra
nos jardins do castelo
crescia um sonho à
margem do povo

e perguntou o rei  poeta
a rainha santa que trazeis
tão secreto no vosso regaço
de seda senhora ?

respondeu - lhe a boa mulher
como vedas não hà milagres
e de santa nada tenho , è apenas
pão , senhor que no mundo novo
que tanto anunciais um homem
não tenha fome e possa escrever
o seu nome , deixar a sua honra
mesmo que seja em vão

o tempo

escoa - se por entre os teus cabelos em ti as leivas as fontes as fontes e as sementes os mais secretos caminhos em ti as searas ainda futur...