quarta-feira, 1 de março de 2017

Cantar longamente

Cantar ? Cantar longamente
uma mulher com quem beber
e morrer

quando fora se abrir o instinto da noite
e uma ave o atravessar trespassada por
um grito marítimo e o pão invadido pelas
ondas seu corpo arderá mansamente sobre
os meus olhos palpitantes


eles imaginam - te vertiginosa
e alta de um certo pensamento


PEQUENINA

Ès pequenina e ris ... a boca
breve  breve è um pequeno Ilídio
cor de rosa haste de lírio frágil e
mimosa cofre de beijos feitos
sonho sobre a neve

doce quimera que a nossa alma deve
ao céu que assim te fez  tão graciosa
que nesta vida amarga e tormentosa
te fez nascer como um perfume leve


o ver teu olhar faz - me bem ... cheira
e sabe a flor quando digo o teu nome
suavemente

pequenina que a mãe de Deus sonhou
que afaste de ti aquela dor que fez de
 mim isto que sou .



Em Cada Mulher

Em cada mulher existe
uma morte silenciosa
e quando o dorso imagina
sob os dedos navega o sangue
desfaz - se em embriaguez
dentro do coração faminto

Oh cabra no vento e na urze
mulher nua sob as mãos mulher
sob o ventre escarlate onde o sal

põe o espírito mulher
de pès no branco transportadora
da morte e alegria .





AMOR A VISTA

Dai - me uma jovem mulher
com sua harpa e  seu arbusto
de sangue , com ela encantarei
a noite .

Dai - me uma folha viva de erva ,
uma mulher , seus ombros beijarei ,
a pedra pequena do sorriso de um
momento .

Mulher quase criada , mas com
gravidade de dois seios , com o

peso lùbrico e triste da boca
seus ombros beijarei .


A Jovem Miss

Ela è tão loira , lírica
franzina , tão mimosa
quieta , virginal ,

como uma bela virgem
dum missal , toda dourada ,
preciosa e fina .

Não hà graça mais casta
e feminina do que a dela !

O seu sorriso angelical
cria em nòs todo um
mundo de moral ,

melhor que tudo o que Plantão
ensinou |

Por isso pela castidade ,
deve ser gozo intenso
na verdade ,

sentir fundir em nòs
seus olhos régios ...

e o gozo de a beijar ,
trémula , amante deve
ser quase estranho e
 semelhante ao de fazer
terríveis sacrilégios



O POEMA

O poema , tambèm violento
libelo contra os poetas oficiais
do tempo , e de um certo estado
de letras no Portugal de então
os poetas evocados :

E quem não esteja là ,
se limpo assassino ,
sò pode recordar os
olhos do poeta , a
boca retorcida de


amargura a espreita , e os gestos
sacudidos em que não falava
senão de alguma esperança
e de poesia .


Manuel Castro

Poeta de curta duração
( 1934 - 1971 )
na sua trabalhada contenção
verbal , e  a que a seguir transcrevo :

Dele poucos leitores ao ler - lhe a
poesia poder - se - a dizer que o
poeta ... não falava senão de alguma


esperança e de poesia  , como escreveu Jorge de Sena .

Nem nada sei das voltas
que lhe deu a vida suponho
que morreu de uma doença
de desordem , miséria talvez
raivosa fùria dia a dia traìda


o tempo

escoa - se por entre os teus cabelos em ti as leivas as fontes as fontes e as sementes os mais secretos caminhos em ti as searas ainda futur...